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Fibrilação atrial: o tempo até a ablação faz diferença?

Quando discutimos ablação de fibrilação atrial, boa parte da atenção se concentra na indicação e na técnica. O momento de encaminhar o paciente também merece ser discutido.

Categoria
Eletrofisiologia
Data
Tempo de leitura
6
Min
Estudo comentado REAL-AF · JAMA Network Open, 2026

A avaliação conjunta entre cardiologista clínico e eletrofisiologista pode começar enquanto as alternativas de tratamento ainda estão sendo consideradas.

O que o REAL-AF encontrou

Publicado em julho de 2026 no JAMA Network Open, o REAL-AF analisou 3.724 pacientes submetidos à primeira ablação por radiofrequência. As recorrências de arritmia atrial, após os primeiros 90 dias, ocorreram em 12,3% daqueles tratados menos de um ano após o diagnóstico, 16,4% entre um e quatro anos e 21,8% após cinco anos ou mais. São proporções observadas no acompanhamento, cuja janela chegou a 459 dias.[1]

Recorrência de arritmia atrial

Proporções observadas por intervalo entre o diagnóstico e a ablação

Menos de um ano: 12,3%, 133 de 1.084 pacientes. Um a quatro anos: 16,4%, 303 de 1.843. Cinco anos ou mais: 21,8%, 174 de 797.

3.724 pacientes. Recorrências após o período inicial de 90 dias, em uma janela de acompanhamento de até 459 dias. Os percentuais são proporções brutas, não estimativas de Kaplan–Meier aos 12 meses.

Elaboração a partir do REAL-AF, eTable 10.[1]

Consultar os dados da figura
Recorrências observadas no REAL-AF
Diagnóstico até ablaçãoRecorrências / pacientesProporção
Menos de 1 ano133 / 1.08412,3%
1 a 4 anos303 / 1.84316,4%
5 anos ou mais174 / 79721,8%

A associação persistiu no modelo ajustado, com 2.052 participantes: HR de 1,48 (IC95% 1,08–2,01) e 2,10 (IC95% 1,46–3,02), respectivamente, comparados ao intervalo inferior a um ano. O estudo é observacional, com dados ausentes e monitorização não uniforme. Não demonstra causalidade nem permite atribuir à antecipação uma redução de mortalidade.[1]

A associação após o ajuste

Hazard ratio de recorrência e intervalo de confiança de 95%

Referência: ablação menos de um ano após o diagnóstico. De um a quatro anos: HR ajustado 1,48, intervalo de confiança de 1,08 a 2,01. Cinco anos ou mais: HR 2,10, intervalo de 1,46 a 3,02.

2.052 participantes no modelo ajustado. Os pontos representam o HR e as linhas, o IC95%. A referência é o grupo tratado em menos de um ano. HR é uma medida relativa ao longo do seguimento, não uma probabilidade individual de recorrência.

Elaboração a partir do REAL-AF, eTable 7.[1]

Consultar os dados e o ajuste
Modelo de Cox ajustado: 2.052 participantes, 336 eventos
Diagnóstico até ablaçãoHR ajustadoIC95%
Menos de 1 ano1,00Referência
1 a 4 anos1,481,08–2,01
5 anos ou mais2,101,46–3,02

Modelo ajustado por idade, sexo, CHA₂DS₂-VASc, tipo de FA, uso/falha prévia de antiarrítmico, fração de ejeção ventricular esquerda e carga de cicatriz estimada por baixa voltagem, com erros agrupados por médico.

Eu vejo nesses resultados um motivo para antecipar a conversa sobre ablação. Para o cardiologista clínico, considero importante incluir o encaminhamento quando o controle do ritmo está em discussão. A consulta com o eletrofisiologista permite avaliar o benefício esperado, os riscos e as preferências do paciente, inclusive quando a decisão final é manter o tratamento medicamentoso.

O que o estudo não permite concluir

Quanto ao remodelamento, é preciso cuidado com a interpretação. Os autores avaliaram áreas de baixa voltagem como estimativa de cicatriz atrial e não encontraram diferença estatisticamente significativa entre os grupos. O método pode subestimar fibrose difusa. O REAL-AF, portanto, não demonstrou que a espera produziu fibrose, nem que antecipar o procedimento a teria evitado.[1]

Também não transformaria a categoria “menos de um ano” em prazo obrigatório para cada paciente.

O encaminhamento na prática clínica

A discussão sobre ablação já pode ocorrer antes de sucessivas tentativas com antiarrítmicos em pacientes selecionados. A diretriz europeia de 2024 recomenda a ablação como opção inicial de controle do ritmo na FA paroxística, dentro de uma decisão compartilhada. Sintomas, características da arritmia, comorbidades, benefício esperado e risco do procedimento precisam ser considerados nessa escolha.[2]

Quando se opta pelo tratamento medicamentoso, considero útil combinar desde o início o que motivará uma nova avaliação. Persistência de sintomas, novas recorrências ou intolerância à medicação precisam trazer a estratégia de volta à discussão. Prefiro um acompanhamento com objetivos definidos a deixar a possibilidade de ablação sem previsão de ser reconsiderada.

O trabalho do cardiologista clínico continua essencial em qualquer dessas escolhas. Controle da pressão arterial, manejo do peso, avaliação de apneia do sono, redução do consumo de álcool e prevenção de eventos tromboembólicos fazem parte do cuidado da FA. A avaliação para ablação deve ser integrada a esse tratamento.[2]

Minha opinião

Dr. Carlos Thiene

Como eletrofisiologista, gosto bastante de receber os pacientes ainda nas fases iniciais da fibrilação atrial. Na experiência da nossa equipe, esse é um momento favorável para melhorar o controle da arritmia e organizar o tratamento de forma mais completa. Em nossos levantamentos, entre pacientes com coração estruturalmente normal tratados precocemente, observamos até 94% de ausência de recidiva da FA em 12 meses.

Esse resultado precisa ser entendido dentro do cuidado que oferecemos. Nossa equipe dá muita importância à otimização do tratamento clínico e ao controle dos fatores que favorecem a arritmia. A diretriz americana de fibrilação atrial reúne, em uma tabela extensa, os fatores associados ao desenvolvimento da doença. Entre os que podemos modificar estão hipertensão, obesidade, sedentarismo, consumo de álcool e tabagismo.[3]

Por isso, após a ablação, orientamos o retorno ao cardiologista de origem e reforçamos com o paciente a importância de manter um acompanhamento clínico rigoroso. Queremos que ele compreenda que o procedimento faz parte do tratamento e que o cuidado continua depois da alta. O médico que já o acompanha tem um papel fundamental nessa continuidade.

Não basta realizar um procedimento, prescrever medicamentos ou oferecer aconselhamento de vez em quando. É preciso compromisso com o tratamento ao longo do tempo. Para mim, o cuidado da fibrilação atrial se apoia nesses três pilares: o procedimento, quando indicado; os medicamentos, ajustados às necessidades do paciente; e o acompanhamento clínico contínuo, com controle dos fatores de risco.

Coração de vidro azul envolvido por três faixas. Ablação: quando indicada, após avaliação individual. Medicamentos: ajustados às necessidades de cada paciente. Acompanhamento clínico: contínuo, com controle dos fatores de risco.
Os três pilares do cuidado, na prática da nossa equipe.Ampliar imagem
Ler os três pilares
Ablação
Quando indicada, após avaliação individual.
Medicamentos
Ajustados às necessidades de cada paciente.
Acompanhamento clínico
Contínuo, com controle dos fatores de risco.

Referências

  1. Singleton MJ, Thorne C, Dai C, et al. Diagnosis-to-Ablation Time and Atrial Arrhythmia Recurrence After Ablation. JAMA Network Open. 2026;9(7):e2623171.

    Artigo completo Material suplementar
  2. 2024 ESC Guidelines for the management of atrial fibrillation developed in collaboration with EACTS. European Heart Journal. 2024;45(36):3314–3414.

    Diretriz europeia de fibrilação atrial
  3. 2023 ACC/AHA/ACCP/HRS Guideline for the Diagnosis and Management of Atrial Fibrillation. Journal of the American College of Cardiology. 2024;83(1):109–279.

    Diretriz americana de fibrilação atrial