O que apareceu ao longo dos anos
Treino de força, como a musculação, foi uma das atividades investigadas em duas grandes pesquisas com enfermeiras dos Estados Unidos. Elas foram acompanhadas por 14,5 anos, em média, e responderam a questionários sobre exercício e outros hábitos. As respostas acumuladas permitiram olhar para a rotina de longo prazo.
O grupo que relatou, na média das avaliações, pelo menos duas horas semanais de treino de força apresentou risco relativo estimado 20% menor para eventos cardiovasculares maiores, em comparação com quem não relatou esse treino. Esse conjunto incluía infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e procedimentos para restabelecer a circulação nas artérias do coração. [1]
Esse percentual compara a ocorrência dos eventos ao longo do acompanhamento, não conta quantos casos seriam evitados. Duas horas eram uma categoria analisada, não uma dose ideal nem uma meta universal.
Infarto e AVC não contaram a mesma história
Na mesma comparação, a associação com menor risco foi mais forte para infarto. Para o AVC, a análise principal não demonstrou associação estatística com a quantidade de treino de força.
Isso não prova que exercício não previna AVC. Um resultado favorável para o conjunto dos eventos não se aplica automaticamente a cada doença. Os motivos da diferença ainda não estão esclarecidos; os autores discutem possíveis explicações biológicas, diferenças na identificação dos eventos e a participação do acaso. [1]

Força e aeróbico no mesmo cotidiano
Quem já caminha, pedala ou nada pode se perguntar se o treino de força ainda entra nessa conversa. Entre as participantes que atingiam o critério de atividade aeróbica, a associação entre força e menor risco de infarto também apareceu. Para o conjunto dos eventos cardiovasculares, o resultado foi menos conclusivo.
Os autores também cruzaram três hábitos: treino de força, atividade aeróbica e tempo sentado em casa assistindo à televisão. Entre os padrões comparados, o grupo que atendia aos três critérios definidos pela pesquisa apresentou a menor estimativa de risco cardiovascular, tendo como referência quem não atendia a nenhum. Televisão, aqui, não representa todo o tempo sentado nem todas as telas. [1]

O treino que continua na rotina
Treinar bastante em um período e manter o hábito ao longo dos anos são coisas diferentes. Para avaliar a regularidade, os pesquisadores verificaram em que proporção dos ciclos de questionários as mulheres atingiam o tempo de treino usado como referência.
Ao cruzar quantidade e constância, a associação favorável apareceu no grupo que reunia a quantidade estabelecida pela pesquisa e maior regularidade. O dado fala da manutenção nos ciclos de avaliação ao longo dos anos, não de uma contagem de semanas ou de sessões sem faltas. [1]
O que os números não conseguem separar
O acompanhamento prolongado, as avaliações repetidas e a confirmação dos eventos por médicos são pontos fortes. Os hábitos, porém, eram informados pelas participantes, sem detalhes suficientes sobre modalidade, intensidade ou supervisão do treino.
Mesmo levando em conta outros fatores, o estudo é observacional e não demonstra que o treino tenha causado a diferença. As mulheres que treinavam mais também tinham, em geral, outros hábitos e condições de saúde mais favoráveis. Alimentação e acesso ao cuidado podem explicar parte da associação.
Eram enfermeiras norte-americanas, predominantemente brancas. Esse perfil limita a aplicação dos resultados a outras populações. [1]
Minha leitura do estudo
O que mais me interessa aqui é a mudança de pergunta. Em vez de escolher entre musculação e caminhada, faz mais sentido pensar em como força e atividade aeróbica podem caber na mesma vida. Não leio o estudo como uma disputa entre modalidades, nem como autorização para trocar uma pela outra.
Também penso na distância entre uma rotina bonita no papel e uma rotina possível. Um hábito precisa encontrar espaço no trabalho, nos cuidados com a família e nas limitações de saúde. A regularidade merece atenção, mas não deve virar cobrança moral: acesso, apoio e condições de vida também entram nessa conta.
Para quem lê, eu usaria essa informação para conversar sobre o próprio plano de atividade, não para copiar o número de horas da pesquisa. Quais atividades fazem sentido, como combiná-las e com que adaptações podem ser mantidas? Séries, cargas e frequência individual dependem da avaliação de cada pessoa.
Referências
- Zhang T, Zhang Y, Lee DH, et al. Resistance Training, Aerobic Activity, Television Viewing, and Risk of Major Cardiovascular Events in U.S. Women. J Am Coll Cardiol. 2026;88(17):1946-1960. doi:10.1016/j.jacc.2026.04.036.



