Fibrilação atrial persistente: a ablação de zonas de baixa voltagem melhora o resultado além do isolamento das veias pulmonares?

No ensaio randomizado IDEAL-AF, somar ao isolamento das veias pulmonares (IVP) a ablação de zonas de baixa voltagem aumentou a ausência de arritmia em 12 meses na fibrilação atrial (FA) persistente com substrato atrial significativo, com taxas semelhantes de eventos adversos graves.[1]

Categoria
Eletrofisiologia
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Estudo comentadoIDEAL-AF · JAMA, 2026
Mapa eletroanatômico de voltagem do átrio esquerdo: áreas em roxo indicam tecido saudável e áreas em vermelho, amarelo, verde e azul indicam baixa voltagem; pontos de ablação contornam as veias pulmonares.

Mapa de voltagem do átrio esquerdo após o isolamento das veias pulmonares. Roxo: tecido com voltagem acima de 0,5 mV. Demais cores: baixa voltagem (abaixo de 0,5 mV). Exemplo do protocolo do IDEAL-AF.

Fonte: Paul Nordin A, et al. JAMA. 2026. doi:10.1001/jama.2026.17274. © 2026 American Medical Association. (Suplemento 1, protocolo do estudo)

Li o IDEAL-AF, que testa uma questão em aberto. Na FA persistente, os autores lembram que a sobrevida livre de arritmia após IVP isolado fica abaixo de 60%. As zonas de baixa voltagem (ZBV) do mapeamento eletroanatômico são usadas como marcador substituto de fibrose atrial e se associam a mais recorrência. Ensaios randomizados anteriores foram conflitantes.[1]

O que o estudo encontrou

Dos 209 randomizados, 102 fizeram IVP mais ablação das ZBV e 107, IVP sem ablação do substrato.[1]

  • Desfecho primário (livre de arritmia atrial documentada aos 12 meses, sem antiarrítmicos, após 1 ou 2 procedimentos [o 2º em até 6 meses]): 69 pacientes (67,6%) vs 40 (37,4%); diferença absoluta não ajustada de 30,3 pontos percentuais (intervalo de confiança de 95% [IC95%] 17,4–43,2); odds ratio (OR) 3,5 (IC95% 2,0–6,2); P < 0,001; OR ajustado 3,7 (IC95% 2,0–6,6). O OR mede chance, não risco absoluto.[1]
  • Um único procedimento, sem antiarrítmicos (secundário): 64 (62,7%) vs 34 (31,8%); hazard ratio (HR) para a primeira recorrência 0,4 (IC95% 0,3–0,6). Para os autores, o resultado com 1 procedimento indica que o benefício não se deveu apenas à reablação (13 vs 19 reablações).[1]
  • Qualidade de vida (secundário; questionário Atrial Fibrillation Effect on Quality of Life [AFEQT]): melhora mediana de 29,1 vs 17,6 pontos (P = 0,02).[1]
  • Segurança (secundário): eventos adversos graves em 10 de 102 (9,8%) vs 8 de 107 (7,5%); P = 0,48. Não houve perfuração, tamponamento, fístula atrioesofágica, estenose de veia pulmonar nem lesão do nervo frênico. Houve 1 óbito em cada grupo: no IVP isolado, por acidente vascular cerebral grave possivelmente relacionado ao procedimento, 36 dias depois; no grupo ZBV, por dissecção tipo A, aos 9,5 meses.[1]
  • Tempo mediano de procedimento: 220 vs 154 minutos.[1]
Curvas de Kaplan–Meier de 0 a 12 meses: o grupo com ablação de zonas de baixa voltagem permanece acima do grupo com isolamento das veias pulmonares isolado na probabilidade de ficar livre de recorrência de arritmia atrial; log-rank P < 0,001. Pacientes em risco: 102 e 107 no início; 22 e 12 aos 12 meses.

IDEAL-AF: tempo até a primeira recorrência de arritmia atrial após um único procedimento, sem antiarrítmicos (desfecho secundário). Laranja: IVP + ablação de zonas de baixa voltagem. Cinza: IVP isolado.

Fonte: Paul Nordin A, et al. JAMA. 2026. doi:10.1001/jama.2026.17274. © 2026 American Medical Association.

Como foi feito

Ensaio simples-cego (operadores não cegos), em 5 centros suecos, com adultos em primeira ablação de FA persistente ou persistente de longa duração. Em ritmo sinusal, os dados de voltagem eram adquiridos, mas ficavam ocultos até concluir o IVP, para não influenciar as lesões; depois, fazia-se o mapa bipolar de alta densidade, com estimulação do seio coronário. ZBV: voltagem < 0,5 mV; áreas ≥ 3,0 cm² eram confirmadas com o cateter de ablação.[1]

Mapa eletroanatômico de voltagem da parede posterior do átrio esquerdo após isolamento das veias pulmonares, com escala de 0,20 a 0,50 mV: roxo indica voltagem acima de 0,5 mV e as demais cores, baixa voltagem; pontos de ablação ao redor das veias pulmonares.

Exemplo de mapa de voltagem: em roxo, tecido com voltagem preservada (> 0,5 mV); nas demais cores, zonas de baixa voltagem (< 0,5 mV). Os pontos marcam as aplicações do isolamento das veias pulmonares.

Fonte: Paul Nordin A, et al. JAMA. 2026. doi:10.1001/jama.2026.17274. © 2026 American Medical Association. (Suplemento 1, protocolo do estudo)

Dos 936 pacientes mapeados, 22,3% (209) tinham ao menos uma ZBV ≥ 3,0 cm² fora das linhas do IVP e foram randomizados durante o procedimento. A ablação era individualizada (homogeneização, “box”, linhas ou combinações), com bloqueio confirmado por estimulação. Arritmia (FA, flutter ou taquicardia atrial > 30 segundos) foi monitorada por eletrocardiograma (ECG) portátil intermitente e Holter de 24 horas, com leitura cega. A análise foi por intenção de tratar; dados ausentes (5 em cada grupo) contaram como falha.[1]

O que muda (e o que não muda) na prática

Os autores sugerem que os 37,4% no IVP isolado provavelmente refletem a população de alto risco, e não mau desempenho do procedimento, ressalvando que comparações entre ensaios são limitadas. Consideram provável explicação do resultado positivo a seleção exclusiva de pacientes com ZBV significativas. Lembram que, no DECAAF II, a ablação de fibrose guiada por ressonância magnética não reduziu recorrência e aumentou eventos adversos graves.[1,2] Já o ERASE-AF relatou melhora do ritmo com modificação de substrato guiada por voltagem, mas a maioria dos randomizados não tinha ZBV, o que, segundo os autores, limita isolar o efeito da ablação dessas zonas.[1,3]

  • Subgrupos (pós-hoc): o efeito estimado foi maior com ZBV ≥ 30 cm² (70,6% vs 5,6%; OR 40,8; IC95% 4,2–395,2; P de interação 0,02). Os autores leem isso como apoio às ZBV como alvo terapêutico; com apenas 35 pacientes e intervalo tão amplo, eu o tomo como gerador de hipóteses.[1]
  • Coorte não randomizada: 103 pacientes sem ZBV, só com IVP: 63,1% livres de arritmia; para os autores, essa comparação exploratória não estabelece equivalência nem causalidade.[1]
  • Limitações declaradas: operadores não cegos; ZBV como substituto não histológico de fibrose; estratégia heterogênea; possível superestimação de ZBV septais; poder insuficiente para eventos raros; sem monitor implantável; apenas radiofrequência; desfecho aos 12 meses; generalização restrita à primeira ablação com ZBV significativas.[1]

Minha visão como eletrofisiologista

Ao comparar as regiões de baixa voltagem mapeadas e os trajetos de ablação descritos no IDEAL-AF com as áreas que abordamos na cardioneuroablação, vejo uma possível sobreposição anatômica, particularmente nas proximidades das veias pulmonares e em porções do septo atrial. Isso me leva a perguntar se parte do benefício também poderia estar relacionada a maior denervação vagal atrial.[1,4]

Em nosso estudo prospectivo com 142 pacientes submetidos a IVP e cardioneuroablação, avaliamos a indução de FA por extraestímulo atrial durante estimulação vagal extracardíaca, o VAFIT. A ausência de indução ao final, ou VAFIT negativo, se associou a menor recorrência. Na análise de tempo até a recorrência, o grupo VAFIT positivo apresentou hazard ratio de 4,56 (IC95% 1,37–15,23) em relação ao negativo. Essa associação, em uma população predominantemente com FA paroxística, não estabelece por si só uma relação causal.[4]

Para investigar essa hipótese em um estudo, eu aplicaria o protocolo VAFIT antes de iniciar a ablação, logo após o isolamento das veias pulmonares e novamente após a ablação das zonas de baixa voltagem. Compararia as mudanças do teste e da refratariedade atrial sob estímulo vagal entre os grupos com e sem lesões adicionais, relacionando-as à recorrência durante o seguimento. A avaliação logo após o IVP é importante porque o próprio isolamento já pode modificar a resposta vagal.[4]

O IDEAL-AF não avaliou essa hipótese com o VAFIT. Considero a denervação um possível mecanismo complementar à modificação do substrato, cuja contribuição precisa ser testada prospectivamente. Para o cardiologista clínico, a mensagem é que o substrato atrial pode influenciar a estratégia de ablação.

Referências

  1. Paul Nordin A, Charitakis E, Carnlöf C, Åkerström F, Saluveer O, Almroth H, et al. Low-Voltage Ablation in Persistent Atrial Fibrillation: The IDEAL-AF Randomized Clinical Trial. JAMA. 2026 Aug 30. doi:10.1001/jama.2026.17274. Epub ahead of print.
  2. Marrouche NF, Wazni O, McGann C, et al; DECAAF II Investigators. Effect of MRI-guided fibrosis ablation vs conventional catheter ablation on atrial arrhythmia recurrence in patients with persistent atrial fibrillation: the DECAAF II randomized clinical trial. JAMA. 2022;327(23):2296-2305. doi:10.1001/jama.2022.8831
  3. Huo Y, Gaspar T, Schönbauer R, et al. Low-voltage myocardium-guided ablation trial of persistent atrial fibrillation. NEJM Evid. 2022;1(11):EVIDoa2200141. doi:10.1056/EVIDoa2200141
  4. Pachon-M JC, Pachon-M EI, Santillana-P TG, Lobo TJ, Pachon CTC, Pachon-M JC, et al. Vagal AF induction test (VAFIT): a new endpoint for optimizing atrial fibrillation ablation through cardioneuroablation. J Interv Card Electrophysiol. 2025;68:293–306. doi:10.1007/s10840-025-02007-w

Perguntas frequentes

O que são zonas de baixa voltagem?

São áreas do átrio esquerdo com voltagem bipolar < 0,5 mV no mapeamento eletroanatômico. Os autores as tratam como marcador substituto de fibrose atrial, associado a mais recorrência após o isolamento das veias pulmonares.[1]

O que o IDEAL-AF mostrou?

Em 209 pacientes randomizados com FA persistente e zonas de baixa voltagem ≥ 3,0 cm² fora das linhas do isolamento, 67,6% do grupo com ablação adicional atingiram o desfecho primário: ficaram livres de arritmia atrial documentada em 12 meses, sem antiarrítmicos, após 1 ou 2 procedimentos (o segundo em até 6 meses). Isso ocorreu em 37,4% do grupo com isolamento das veias pulmonares isolado (sem ablação adicional).[1]

A ablação adicional aumentou os eventos adversos graves?

Os eventos adversos graves ocorreram em 9,8% vs 7,5% (P = 0,48), sem diferença significativa. O estudo não teve poder estatístico para detectar eventos raros. O procedimento foi mais longo: mediana de 220 vs 154 minutos.[1]

O resultado vale para todos os pacientes com FA persistente?

O estudo não responde a isso. Só pouco mais de um em cada cinco pacientes mapeados (22,3%) tinha zonas significativas e entrou na randomização. Entre as limitações declaradas pelos autores estão:

  • a generalização se restringe a FA persistente com zonas de baixa voltagem significativas, na primeira ablação;
  • foi usada apenas ablação por radiofrequência;
  • o desfecho foi avaliado em 12 meses, e a durabilidade exige seguimento mais longo.[1]
E o efeito maior nas áreas mais extensas?

No estrato com zonas ≥ 30 cm², 70,6% vs 5,6% ficaram livres de arritmia. Os autores leem o achado como apoio às zonas de baixa voltagem como alvo terapêutico. Mas trata-se de análise de subgrupo pós-hoc, com apenas 35 pacientes no estrato e OR 40,8 (IC95% 4,2–395,2; P de interação entre os estratos de tamanho 0,02), o que pede cautela na interpretação.[1]

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